E o esplendor dos mapas

"E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta" - Álvaro de Campos eoesplendor@hotmail.com

Nome: João Miguel Almeida
Localização: Lisboa, Portugal

Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

Ecco

Não foi no dia dos Reis, mas não há azar. O Amigo do Povo está na blogosfera. Conta com a colaboração bloguista de Luís Aguiar Santos, Fernando Martins, Bruno Cardoso Reis, Ana Cláudia Vicente e João Miguel Almeida. Podem visitá-lo aqui.

Sexta-feira, Janeiro 06, 2006

O Amigo do Povo

O novo blogue encontra-se em construção. Afinal não arranca no dia dos Reis, mas na próxima semana. A notícia e o link da estreia na blogosfera serão o remate de «E o Esplendor dos Mapas». Missão a cumprir: ultrapassar as tradicionais divisões entre blogues culturais e políticos. «O Amigo do Povo» tratará da Poética e da Política; reunirá a Esquerda e a Direita. O Povo nos julgará.

Sábado, Dezembro 24, 2005

Volto com os Reis

Este é o meu penúltimo post neste bloque. O último será um link para o blogue colectivo em que vou escrever. Data de partida prevista: 6 de Janeiro, dia dos Reis. Até lá, felizes navegações e boas festas.

A viagem interior


m Em cima: a chegada a Dar Es Salaam, no início da nossa viagem pela Tanzânia. Em Baixo: o nosso regresso a Londres.

O mar como fonte de vida

Aspecto pouco visto do porto da Cidade de Pedras. A par do Zanzibar poético, o Zanzibar da incessante luta pela vida.

Monte Sião

«Mount Zion», o complexo turístico em que ficámos remete para o imaginário bíblico. É uma aproximação numa praia do índico dos estereótipos do paraíso. Outros lembrar-se-ão das teorias que situavam a «Ilha dos Amores» do Canto IX dos «Lusíadas», de Camões, em Zanzibar.

Um porto no Índico

O porto da cidade das pedras reflecte tanto o legado de um passado rico como um presente dinâmico.

A cidade das pedras

«Stone Town», a capital de Zanzibar, é a cidade das pedras, das ruas estreitas e labirínticas, das lajes que a chuva torna luzidias.

De avião para Zanzibar

Depois da viagem pela Tanzânia continental, apanhámos o avião da «Tanzanian Airlines» para Zanzibar. Experimentámos o ferry boat para regressar e não há dúvidas: esta é a melhor maneira de se fazer transportar até à ilha. O voo é barato e confortável. Atrasou-se, é certo, mas, para consolar os passageiros, a companhia da Tanzânia ofereceu-lhes uma bebida não alcoólica. A TAP também se atrasa e não oferece nada.
PS
Bom Natal
Merry Christmas

No interior da cratera

O Ngorongou é uma enorme cratera aberta por um vulcão. As paredes da cratera erguem-se como montanhas. Após o fogo, terra, água, nuvens, vida e a beleza que só os humanos sentem.

Pôr do sol

A noite desce, em tons lilazes, sobre o Ngorongoro.

Quinta-feira, Dezembro 22, 2005

Quando fui humano

Podem não acreditar, mas já fui humano. Um daqueles seres que rompem pelo planalto em jipes ruidosos. Páram quando avistam um animal de grande porte e entusiasmam-se quando descobrem uma chita, um leão deitado em cima de um rochedo ou um leopardo escondido sob a copa de uma acácia.
Hoje à tarde as memórias da minha outra vida refrescaram-se. Lembrei dias amenos em Lisboa, a cerveja do Bairro Alto, o desconforto do metro nas horas de ponta, a atmosfera asséptica da Torre do Tombo e os minutos de sol na varanda da Biblioteca Nacional. E também os os cinemas, os encontros no Saldanha Residence e o tempo passado nas praias do Atlântico.
Por quê todas estas lembranças despropositadas ? Não me admirava se a ingestão do louco fotógrafo tivesse a sua influência. Era um estrangeiro. Não tenho a menor dúvida. Talvez, como tantos outros, tomasse a sua dose semanal de Mephaquine desde há longos meses. É possível que os efeitos secundários sentidos por humanos que o tomam frequentemente como prevenção contra a malária - sonhos intensos, delírios, alucinações - me afectem neste preciso momento.
O homem não podia estar no seu juízo perfeito ao tentar fotografar-me exactamente quando me preparava para caçar um impala. A presa escapou, mas não o fotógrafo. A carne adocicada dos humanos não é a minha preferida. Mas, de vez em quando, por que não ?
Pergunto-me qual será a próxima reencarnação da alma do fotógrafo. Duvido que a presa de um leopardo anime o corpo de um outro leopardo. No entanto, admito: quem arriscou a sua vida na savana pode muito bem cá voltar. Será um desses lagartos de rabo comprido e cabeça vermelha, passando a maior parte do dia agarrados a uma rocha batida pelo sol.

Kopjes

Kopjes é uma região pouco visitada do Serengueti. O fotógrafo que nos acompanhava convenceu-nos a percorrê-la na esperança de vermos chitas. Aquelas rochas emergindo da vegetação rala encontram-se ali há milhões de anos. Estavam lá quando Lucy deu os primeiros passos.

Macado em meditação

Lei da savana

A Lei da Selva tem muito má fama nas civilizações humanas, mas a lei da savana, neste caso do Serengueti, inclui preceitos de colaboração carinhosa.

Terça-feira, Dezembro 20, 2005

Silhuetas africanas

No dia seguinte, partimos noutro jipe para ver outras paisagens da Tanzânia. As silhuetas das girafas recortando-se, elegantes, no horizonte, são um ícone de África.

Uma tarde em Moshi

No quinto dia, voltamos a Moshi. As neves do Quilimanjaro contrastam de novo com a exuberante vegetação africana.

Regresso

Saio da cabana. O jipe espera-nos do planalto Shira. É por ele que saímos do Parque Nacional do Quilimanjaro, correndo a mais de cem à hora por trilhos de terra batida. Apesar dos violentos solavancos, adormeço.

Exausto

A fotografia apanha-me a dormir sentado, na cabana metálida do acampamento «New Shira». Depois de perceber que tinha dificuldade em apertar os atacadores, passei cerca de nove horas a descer a montanha.

O último acampamento

O acampamento «Arrow Glacier», a 4800 ou 4900 metros de altitude, garante rocha, nevoeiro e um vento que entra na carne como gumes e desfez a minha tenda. Ainda assim, foi a noite em que dormi melhor. Reunimo-nos numa só tenda para resistir melhor ao frio antes da escalada final. Deitámo-nos por volta das nove da manhã e acordámos à uma. A Ana decidiu voltar para trás. Eu, o Armando, o guia e um assistente, prosseguimos. Não tinha dores de cabeça, mas o corpo pesava-me. Subimos por uma rampa de pedras e sentei-me para apertar os atacadores. Não me conseguia levantar. O guia aconselhou-me a voltar para trás. Eram três da manhã e discutia com ele, argumentando que não tinha dores de cabeça e queria subir. «Se continuares podes prejudicar gravemente a tua saúde». Perante esta frase, decidi voltar. Pensei em tudo o que me esperava cá em baixo. Não foi desta que subi ao tecto de África.

Aridez

O caminho para o acampamento «Arrow Glacier» é árido e árduo.

Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

Lava Tower

Para trás fica «Lava Tower», a 4600 metros de altitude, com o seu acampamento que só com muita atenção se consegue descortinar nesta imagem. Aí sofremos a primeira baixa: Lukeria, a quem a altitude causara violentas dores de cabeça e náuseas que os analgésicos não conseguiam iludir, voltou para trás. Uma curta paragem permitiu a despedida emocionada. Tínhamos de chegar ao acampamento «Arrow Glacier» antes que a noite chegasse.

Ana

Com a rocha «Lava Tower» ao fundo, Ana sorrina para a câmara. É uma professora do Porto, com formação em Físico-Químicas e curriculum na investigação. A sua aparência frágil é enganadora. Aguentou até ao último acampamento, mostrando sempre atenção e cuidado pelo estado dos outros.

Travessia árdua

À medida que subimos, a expressão «deserto alpino» faz cada vez mais sentido.

Cogumelo vulcânico

A lava fez-se pedra, o vento deu-lhe forma, os homens colocam-lhe nomes, transformam coisas estranhas num mundo familiar.

Quarta-feira, Dezembro 14, 2005

Paisagem de pedras

A turfeira vai cedendo lugar à terceira paisagem do Quilimanjaro: o deserto alpino. O ar torna-se mais rarefeito e frio. Este é um caminho estreito e austero.

Mudança de rumo

No quarto dia, partimos do acampamento «New Shira». Decidimos sair da rota Machame e tentar alcançar o topo de do Quilimanjaro por «Western Breach». A opção permitir-nos-ia, durante a subida, passar pela formação rochosa «Lava Tower» e, depois do acampamento «Arr ow Glacier», ver o vulcão da montanha ainda em actividade.

Terça-feira, Dezembro 13, 2005

Brincadeira

Frederick, o guia, e White, um assistente, brincam às operações de salvamento na área do planato Shira onde se dá a evacuação, por jipe, dos montanhistas afectados pela «doença da altitude».

O planalto Shira

No terceiro dia no Quilimanjaro, saímos do acampamento New Shira, passámos pelo antigo acampamento Shira e passeámos no planalto. Objectivo: exercitar o corpo a uma altitude um pouco mais elevada do sítio onde dormimos.

Acampamento com vista

Acima dos três mil metros, alguns montanhistas começam a sentir sintomas mais leves ou mais pesados da doença de altitude - dores de cabeça e náuseas. A dúvida instala-se: vou subir até ao cume ? O pico Uhuru permanece uma imagem de serenidade - e no entanto os fenómenos naturais parecem projectar nele os sentimentos dos montanhistas: tão depressa surge sólido, seguro, à luz do sol, como se volatiliza atrás de uma nuvem.

Domingo, Dezembro 11, 2005

Anoitece no Quilimanjaro

O tecto de África é um cenário digno do crepúsculo dos deuses.

Alta atitude

O acampamento New Shira

Passámos duas noites no acampamento New Shira, situado a 3800 metros de altura. Serviu-nos de base para ensaiarmos a adaptação à altitude seguindo o príncipio «subir alto, dormir baixo».

Armando Castro

A primeira viagem que fiz com o Armando foi de Inter-Rail, até Itália. Tinha-o conhecido em Lisboa, onde eu acabava o 12.º e ele um curso de engenharia. Nascera em Moçambique e cresceu em Guimarães. Depois de obter o canudo rumou a Braga, onde tentou organizar uma vida. Mas Portugal parecia-lhe cada ver mais pequeno. Um dia emigrou para a Austrália. Tirou uma bacharelato de enfermagem que lhe serviu para trabalhar com os aborígenes australianos, em Timor-Leste e na Arábia Saudita (durante dois anos). Actualmente exerce a sua profissão num hospital de Londres. Quando me convidou, no início do ano corrente, para subir o Quilimanjaro, juntamente com Ana, a namorada do Porto, e Lukeria, uma australiana de origem sino-russa, aceitei. Com entusiasmo.

Segunda-feira, Dezembro 05, 2005

Escrever

Aproveito uma pausa, destinada a descansar e a comer, para tomar notas no meu caderninho Moleskine. Ao comprá-lo, em Lisboa, pensei tratar-se apenas de um fétiche de candidatos a escritores, esquecidos de que uma das razões que levou van Gogh ou Hemingway, no início da sua carreira, a comprar cadernos destes é que deviam ser muito baratos. Aliás, era o baixo custo de vida em Paris, no início do século XX, que atraía muitos norte-americanos. Mas no Quilimanjaro descobri o lado prático destes cadernos: facilmente se guardam num bolso das calças ou do casaco; podem recolher muitas notas se escritas a lápis e em letra miudinha; as capas duras e o elástico protegem as folhas. Escrever neles é mesmo escrever um livro. Um livro manuscrito, único, de capa dura, adequado para registar observações súbitas e para resistir ao tempo.

Domingo, Dezembro 04, 2005

Companheiros de escalada

Estes pássaros negros, abutres ou aparentados, acompanhavam de perto a nossa subida. Na esperança...de apanhar restos de comida, como é óbvio.

Sábado, Dezembro 03, 2005

Lobelia

A lobelia é uma planta que assume formas únicas no Quilimanjaro e leva oito anos a florir.

Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

Sorrisos no ar cristalino

Entre as Nuvens (II)

Quarta-feira, Novembro 30, 2005

Entre as nuvens

Acima de nós, nuvens ocultando os cumes do Quilimanjaro. Abaixo de nós, um manto de nuvens cobrindo a floresta tropical. A montanha parece flutuar no céu azul claro.

Terça-feira, Novembro 29, 2005

Para além das nuvens

Como num passe de mágica, o pico Uhuru evapora-se. Parece jogar às escondidas com os montanhistas, esses minúculos pontos móveis subindo a espinha de um dragão petrificado.

Sábado, Novembro 26, 2005

Acordar no Quilimanjaro

O passeio pelo carreiro bem traçado na floresta parecia um roteiro turístico não muito diferente dos que são possíveis em Portugal - excepto o excesso de humidade e de lama. No dia seguinte, já não era possível qualquer ilusão. Estávamos na mais imponente montanha de África.

Uhuru resplandecente

O primeiro acampamento da rota Machame. Antes que anoitecesse, as nuvens descobriram o pico Uhuru, que resplandeceu sob os últimos raios solares.

Moorland

Pouco a pouco a floresta tropical vai cedendo lugar ao segundo tipo de paisagem, característico da montanha entre os 2800 e os 4000 metros de altitude. O termo inglês é «moorland». Gosto desta palavra com sabor a nevoeiro e filmes de Fritz Lang. Aceitam-se informações sobre a correcta tradução em português.

O labirinto verde

A primeira paisagem do Quilimanjaro, a floresta tropical, consiste numa vegetação luxuriante, com árvores cobertas de musgo e fetos gigantes que, paradoxalmente, fazem lembrar os do Buçaco.

Domingo, Novembro 06, 2005

As torres do Quilimanjaro

Não, não é um monte de lama esculpido pela chuva, mas um edifício laboriosamente construído por formigas.

Sexta-feira, Novembro 04, 2005

Felizes caminhando na lama

A floresta tropical é a primeira das quatro paisagens que o Quilimanjaro oferece. Um pouco atrás de mim vai Lawrence, assistente da expedição. O bastão de caminhada que seguro pode parecer estranho, mas é muito apropriado para subir um caminho enlameado. Nesta altura estava a pensar que, afinal, umas polainas davam jeito.

Quinta-feira, Novembro 03, 2005

Distribuição de cargas

Por lei, os montanhistas só podem entrar no Parque Nacional do Quilimanjaro integrados num grupo com guia e carregadores. O limite de carga para cada carregador encontra-se fixado: 15 quilos. É um modo de garantir a sua integridade física e de aumentar oportunidades de emprego. Cada montanhista deve levar consigo uma pequena mochila com objectos pessoais: máquina digital (a minha pifou depressa), dinheiro e documentos, papel higiénico, biscoitos ou bolachas, etc. O meu bloco de notas ia num bolso das calças ou do casaco. Também levava lápis e afia.

Do lado de dentro do muro

O muro de cimento que ladeia os portões da rota Machame tem algo de misterioso. A sua utilidade é mais do que discutível, pois termina abruptamente ao fim de umas centenas de metros, sendo facilmente contornável. A sua função é antes de mais simbólica: quem o atravessou vai subir a montanha. A bagagem de jipes e carrinhas é descarregada. As viaturas encontram-se no ponto de chegada e os montanhistas no ponto de partida.

Quarta-feira, Novembro 02, 2005

Registo

Todos os montanhistas têm de preencher um livro de registos, primeiro à entrada de cada rota e depois em cada acampamento. Os dados repetem-se e são bastante completos: nome, nacionalidade, nome do guia e da companhia, profissão, número de passaporte.

Terça-feira, Novembro 01, 2005

As portas do Quilimanjaro

Uma das entradas para o Quilimanjaro, a da rota Machame. Do outro lado do portão, acumulam-se os homens tentando ganhar dinheiro com apetrechos vendidos à última da hora: chapéus, lenços, polainas, bastões de caminhada, coberturas destinadas à protecção das mochilas da chuva, etc. Chamam pelos montanhistas que aguardam na fila para escrever o registo obrigatório. Os preços são regateáveis. Com sorte, um deles ainda é contratado como carregador.

Segunda-feira, Outubro 31, 2005

O gigante discreto

Da janela da carrinha, avista-se, quase imperceptível, o Quilimanjaro (lado esquerdo da imagem). Parte do charme desta montanha de origem vulcânica reside na sua paradoxal capacidade de se confundir com as nuvens.

Domingo, Outubro 30, 2005

Manhã de partida

Do meu diário, escrito a 19/08/2005: «Hoje levantei-me antes das sete da manhã e tomei um duche de água fria. Corri para o cybercafé. Verifiquei as caixas de email e escrevi um longo poste. O encontro com o guia estava marcado para as nove.»

Sábado, Outubro 29, 2005

Prontos para subir

Da esquerda para a direita: Ana, Armando, Frederick (o guia), o bloguista e Lukeria. Estamos em Moshi, à entrada do «Buffalo Hotel», onde ficámos a dormir. A janela aberta atrás de nós, do lado direito, dá para o cybercafé onde escrevi alguns dos postes que aqui publiquei em Agosto.

Sexta-feira, Outubro 28, 2005

Post-scriptum

Já depois de ter resolvido fechar o blogue, chegou-me às mãos um CD-ROM com fotografias tiradas durante a minha viagem à Tanzânia. Decidi publicar um post-scriptum com as imagens e legendas. O meu primeiro objectivo era subir ao topo do Quilimanjaro e já sabemos que me fiquei pelos cinco mil metros. Esta é a crónica de uma derrota anunciada e da convicção de que, como escreveu Camus, «A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.»

Sábado, Outubro 22, 2005

Despedida

Obrigado a todos os visitantes que fizeram deste blogue a sua tenda.

Há seis meses

Despertou em nós a dança que nos une.

Sexta-feira, Outubro 21, 2005

Um ano na blogosfera

Faz hoje um ano que iniciei este blogue. Um arranque precipitado pela urgência de escrever: primeiro vieram os textos, depois mais texto e mais texto. Só para o final de Dezembro é que inseri um «sitemeter» e demorei largos meses antes de aprender a inserir imagens.
O blogue permitiu-me escrever textos que de outro modo nunca teriam passado de vagas ideias; construir uma memória neste meio aparentemente tão efémero e «virtual» face a acontecimentos públicos e vivências privadas; comunicar.
Este último aspecto é o que suscita agora mais reflexões. Os meus postes têm dado origem a discussões «off blogs» com as pessoas que me conhecem, mas os comentários são parcos nas caixas respectivas. Consolo-me com as conversas a posteriori e a observar a origem dos países dos visitantes no «site meter». Recordo o dia em que, depois de ter escrito um poste a criticar George W. Bush, deparei, divertido, com a indicação de um visitante oriundo dos EUA (Gov). É possível que me escapem referências de outros blogues ao meu por desconhecimento técnico da minha parte. Sei que há uma coisa chamada technorati mas não a pratico e só por acaso ou aviso tenho visto links para «E o Esplendor...».
Encaro o caminho percorrido com leveza. Sinto vontade de partir para outra. Criar um novo blogue, com outro mote e nome de uma só palavra. Quando contei a outras pessoas que ia entrar sozinho na blogosfera contaram-me exemplos de quem tinha enveredado pelo mesmo caminho e logo se arrependesse, juntando-se a outros bloguistas. Um ano depois desconfio que, mesmo que viesse a participar num blogue colectivo, manteria o meu canto solitário mas não isolado na internet, escrevendo como quem experimenta e esboça textos a lápis num caderno.

Quinta-feira, Outubro 20, 2005

A candidatura «previsível e eficaz»

António José Teixeira considerou, na TSF, que a apresentação da candidatura de Cavaco Silva era «previsível e eficaz». Resta acrescentar que parte dessa eficácia se deveu aos jornalistas presentes na conferência. Eu não percebo como é que o candidato a Chefe Supremo das Forças Armadas e a representante de Portugal perante os Estados estrangeiros não tem uma palavra a dizer, no actual contexto, sobre Segurança ou Relações Internacionais. Percebo ainda menos que nenhum jornalista o faça quebrar o silêncio.

Candidaturas paradoxais

As candidaturas de Mário Soares e de Cavaco Silva vivem de um paradoxo na relação com os respectivos partidos de origem. Mário Soares, que foi, durante dez anos, «Presidente de todos os portugueses» e, por igual período de tempo, Presidente de uma Fundação, lança a sua candidatura no bojo de um partido enredado em intrigas e polémicas em torno da questão presidencial. Cavaco Silva, que não teve intervenção político-cívica de relevo fora do partido e do Governo por ele liderados, consegue apresentar uma candidatura «a título pessoal», permitindo-se o gesto de suspender temporariamente a sua filiação partidária. Quem continua a ver nele apenas um tecnocrata é porque sucumbiu à sua retórica e se deixou iludir por um grande actor do teatro político.

A esperança incerta

Hoje à noite Cavaco Silva «quebra o tabu» anunciando a sua candidatura em nome «da estabilidade e da esperança». Resta saber que esperança é esta. Só o mais brilhante cronista português, Vasco Pulido Valente, este ano já viu em Cavaco «o novo João Franco», uma reedição do General De Gaulle e um simples «bom aluno». Em relação a quem nunca se engana e raramente tem dúvidas é uma esperança muito incerta.

Terça-feira, Outubro 18, 2005

As aves de Sá de Miranda

«O sol é grande, caem co´a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que soe ser fria;
esta água que d´alto cai acordar-me-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu´em vós confia ?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
Incertos muito mais que ao vento as naves.»

Do soneto de Sá de Miranda, escritor do século XVI, in ANDRADE, Eugénio, Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Porto, Campo das Letras, 2001, pág. 124.

Domingo, Outubro 16, 2005

As aves da morte

Até ler hoje o editorial de Nuno Pacheco no «Público», que cita «Os Pássaros» de Hitchcock, ainda não tinha percebido os contornos da angústia por causa de uma eventual «gripe das aves». Feitas as contas, morreram pouquíssimas pessoas desde os primeiros sinais da gripe, em 1997. E as que morreram estiveram em contacto directo com aves doentes. Teme-se um vírus que ainda não existe e pode nunca vir a existir, um vírus capaz não só de ser transmitido de ave a pessoa, mas também de pessoa a pessoa. As fobias da administração Bush explicam em parte o fenómeno: foram apanhados de surpresa pelo Katrina e não querem mostrar-se negligentes perante outra catástrofe natural. Eu desconfio um bocadinho destas paranóias vindas do outro lado do Atlântico. Michael Moore mostrou num dos seus documentários como os meios de comunicação social norte-americanos falaram insistentemente de uma vaga de «abelhas africanas» que podia invadir o país a partir do México. E bem me lembro do famoso «bug» do ano 2000, que poderia apanhar populações inteiras em armadilhas informáticas. Qual a fronteira entre o delírio e o perigo real ? Não posso, obviamente, responder a esta pergunta, mas não tenho dúvidas de que o êxito mediático da «gripe das aves» se deve aos mais sombrios recantos do imaginário humano: a morte caindo do céu, como um castigo divino.
Já que se cita «Os Pássaros» de Hitchock, transcrevo de seguida um trecho do diálogo entre o grande realizador e François Truffaut sobre o filme:
«P. – Desde 1945, quando se fala no fim do mundo, pensa-se evidentemente, na bomba atómica. É inesperado substituir a bomba por milhares de aves...
R.- É por isso que o cepticismo em relação à catástrofe possível é expresso pela velha mulher, a ornitóloga; é uma reaccionária, uma conservadora, incapaz de acreditar que uma coisa grave possa acontecer através das aves.
P. – Fez bem em não fornecer o motivo da acção agressiva das aves. O filme é nitidamente uma especulação, uma fantasia.
R. – Era assim que eu via as coisas.
P. – Suponho que a ideia das aves que agridem as pessoas no campo foi inspirada a Daphné du Maurier por acontecimentos reais.
R. – Sim, acontece de vez em quando devido a uma doença das aves, muito precisamente a raiva; mas era demasiado horrível mostrar isso no filme, não acha ?»

Hitchcock. Diálogo com Truffaut, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, pág. 211.